No coração de Roraima, em afloramentos rochosos da cidade de Bonfim, cientistas da Universidade Federal do estado desenterraram um enigma pré-histórico: pegadas fossilizadas de dinossauros, algumas deixadas por criaturas gigantes que poderiam ultrapassar os dez metros de comprimento. Esses rastros servem como portais para uma paisagem muito diferente da floresta amazônica que conhecemos hoje.
O primeiro vislumbre dessas pegadas surgiu por acaso, quando o geólogo Vladimir de Souza, durante expedições de campo, notou marcas incomuns em lajedos de arenito. A intervenção não era apenas visual — tratavam-se de impressões profundas, removidas milimetricamente pela erosão. Só após uma investigação de mais de uma década os pesquisadores confirmaram que aquelas depressões não eram meras formações geológicas, mas verdadeiras cicatrizes deixadas por dinossauros.
Segundo a equipe, as pegadas datam de cerca de 110 milhões de anos, remetendo ao período em que a região era dominada por planícies inundáveis, bem distintas da vegetação moderna. Os registros apontam para pelo menos seis gêneros de dinossauros — embora os cientistas estimem que mais de vinte diferentes podem ter vivido ali. Entre eles estão gigantes herbívoros, provavelmente saurópodes, cujos rastros sugerem indivíduos com mais de dez metros, e carnívoros ágeis, semelhantes aos famosos velociraptores.
Mas os vestígios não se limitam aos passos dos répteis. A pesquisa também revelou fósseis vegetais: coníferas com aspecto de pinheiros, samambaias e plantas floríferas. Esses achados paleobotânicos oferecem pistas valiosas sobre a flora ancestral da região, levantando a hipótese de que o que hoje é lavrado — vegetação típica e rala — já foi uma vegetação mais diversificada e exuberante.
Além do impacto científico, essa descoberta abre caminho para novos olhares sobre Roraima. Já existe a expectativa entre os pesquisadores de transformar o local em um parque geológico. A ideia é transformar o sítio em destino de turismo científico, atraindo paleontólogos, estudantes e aventureiros em busca de uma viagem à era dos dinossauros, ao mesmo tempo em que se promove a preservação ambiental e o valor educativo do patrimônio fóssil.
Mais do que provas da presença de gigantes jurássicos, as pegadas de Bonfim são também um convite à reflexão: a Amazônia, tão presente no imaginário nacional como sinônimo de floresta densa, também guarda traços de planícies antigas e eras esquecidas. É um lembrete poderoso de que o território que hoje admiramos abriga camadas profundas de história — literalmente esculpidas em pedra.